quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Um mês de escola

Até onde me consta, a palavra 'mês', com a nova reforma ortográfica, não terá mais acento circunflexo. E eu vou me ferrar... sou viciada na "velha ortografia"... não entra na minha cabeça que 'mês' e 'pêra' não tem mais acento... mas isso é outra conversa.

Esse post tinha o título de "Primeiro dia no trampo". Depois passou para "Primeira semana no trampo". O tempo voou e estou há mais de um mês na escola e digo que muita coisa mudou no meu ponto de vista desde o primeiro dia... primeiro porque no primeiro dia não tinha alunos, segundo porque na primeira semana, com a tal gripe suína, mal tinha alunos na escola. E eu digo, os alunos fazem toda a diferença em trabalhar por lá...


Bom, agora eu trabalho numa escola, cheia de alunos da 1ª até a 4ª série, variando entre 6 e 11 anos. Tem crianças de todos os tipos, jeitos, cabelos, cores, manias, educações... por ser uma escola estadual, imaginei que lidaria com encrencas em miniatura, crianças sujas ou muito pobres. Pensamento preconceituoso o meu... na escola em que trabalho muitas crianças vem uniformizadas. Muitas tem a mochila da moda, seja da Hello Kitty ou do Naruto. As meninas vem de trancinhas, fivelas, sapatilhas. Os meninos, de tênis do Homem Aranha, relógios do Ben 10. Os pais? Muitos vem bem arrumados buscar os pimpolhos, outros tantos com carros bonitos. Os que não tem tempo de buscar, a perua escolar busca. Fiquei pasma com o meu pensamento tonto de quem estudou quase toda a vida em escola particular...

Antes de pensarem que estou puxando o saco do Serra e do PSDB, eu DETESTO ambos, ok? Os salários do Estado são péssimos. Digo por mim, pelos meus pais, pela minha sogra, que são servidores estaduais. Digo pela propaganda enganosa sobre a saúde e a educação, que depende muito mais dos funcionários do que a verba e incentivo que o governo dá. Digo também pelo superfaturamento de tudo, além dos incentivos FEDERAIS que chegam até a escola, como kit de livros infantis e materias. Depois de explicar que detesto do governo do estado de São Paulo, poderei elogiar minha escola sem parecer puxa saco de direita. A escola me surpreendeu completamente. Surpreendeu tanto que eu, que sempre valorizei os estudos, estou repensando algumas coisas... se eu tivesse um filho hoje que precisasse estudar da 1ª à 4ª série, eu o colocaria aqui no Gianfrancesco. Mas a partir da 5ª série eu não sei se manteria no Estado, pois não conheço as outras escolas... aqui eu conheço, convivo e trabalho. Os professores são bons e a direção pega no pé para eles não faltarem. Se alguém falta, na hora um professor eventual em cobrir a aula. O laboratório de informática está novinho, cheio de computadores com monitores LCD. A biblioteca é enorme e cheeeeia de livros, já li vários, hoje vou começar "As memórias de Emília". As crianças ganham quase todo o material escolar, comem merenda todo dia, que varia de macarrão, arroz, purê a mingau, nescau, vitamina de frutas. Se a escola organizar um passeio como teatro ou museu, o aluno não gasta nada: a escola banca o ônibus, o ingresso e manda kit lanche com toddynho, barra de cereal, bolacha recheada, bolinho Ana Maria e Club Social. Pra fechar, em junho ocorreu um multirão da visão aqui. A escola fretou um ônibus e convidou pais e filhos a irem à um exame oftalmológico. As crianças diagnosticadas com problemas de visão ganharam óculos pagos pela escola. Aí você pensa, incrédulo ou revoltado, 'mas que merda é essa, uma escola pública boa? Ou é mentira ou sou feito de trouxa!'. Não é mentira e talvez muitas pessoas sejam feitas de trouxa sim. Minha mãe chegou à uma conclusão: é para isso que vai o dinheiro dos nossos impostos, pagamos para as outras pessoas aproveitarem os (péssimos)
serviços públicos enquanto pagamos escola particular pra nossos filhos, convênio... E ela disse outra coisa: o certo seria se TODAS as escolas fossem igual ao Gianfrancesco. Claro que a escola não é 100%, falta uma boa quadra pros meninos, talvez mais funcionários, um apoio psicológico de qualidade pras crianças (pois muitos não tem pais, moram em invasões, tem familiares viciados em drogas), mas é uma escola muito boa comparada à lenda urbana das escolas estaduais. Talvez por ser uma escola antiga, de apenas 1ª à 4ª série e com uma diretora com muitos anos de casa que a qualidade seja melhor. Ou talvez seja uma exceção mesmo, não sei dizer.

Sei que estou adorando trabalhar com as crianças, estou aprendendo muito a cada dia que passa, cada um com seu jeitinho, uns carentes, outros engraçados, uns caras de pau, outros mal criados, mas todos com algo a acrescentar (nem que seja me mostrar que não, eu não tenho paciência com todos os tipos de crianças). Eu cheguei até a dar uma brisada em fazer pedagogia e dar aula, mas acho melhor rachar e passar em outro concurso, se quer saber.

Mudei da água pro vinho, de hotelaria pra educação e não é que estou gostando afinal? Se não der certo, terei mais uma experiência profissional pra acrescentar no curriculum, entre garçonete, demonstradora, recepcionista, free lancer de eventos, estagiária, cozinheira... quer mais?

Fica pro próximo post falar dos pequenos que eu convivo aqui. Tem o Vinícius, o Edson Marley (sim, é o nome dele), o José, as fofinhas da 4ª série, a Kathleen e a Mariana... eu tenho preferência pelos meninos, que caem, assopram o machucado e bora correr, mas tem umas menininhas que são meus xodózinhos... mas isso tudo fica pra depois!

Um comentário:

  1. É realmente, não adianta fugir realmente padescemos deste mal e somos pré conceituosos sim, mas acredito que o mais importante é se deixar acrescentar... e é isso que nos difere uns dos outros... tem gente que prefere visualizar novos horizontes e não é que dá certo... ouvi ontem no técnico que as diferenças completam lacunas ou algo parecido é a mais pura verdade!!!

    Saudades

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