quarta-feira, 28 de abril de 2010

Manias e desenhos

Eu sou uma zero à esquerda para desenho, sempre fui. Nem boneco palito meu sai bonito, sempre tem algum defeito. O tanto que gosto de ler e escrever nunca se refletiu nas artes. Nunca fui muito boa em pintura, dobradura, artesanato, apesar de a vontade de fazer penduricalhos e enfeites sempre ter sido grande. Dizem que quem escreve bem, ortograficamente dizendo, usa um lado do cérebro que é incompatível com uma área relacionada à criatividade. Quem tem memória boa e decora as coisas não tem tino pra arte, resumindo. Eu sou bem daquelas que decora tudo: briga com o namorado, aquela de 1927 que ninguém lembra mais; uma aula de biologia que fala sobre as partes da célula (duvido que você lembrava que as mitocôndrias são responsáveis pela respiração celular) ou talvez a data do descobrimento da América. Eu adoro armazenar informações (in)úteis na minha cabecinha de vento, por isso não sobra espaço para ser criativa (ou relaxamento suficiente para a imaginação fluir). Tenho quase certeza que essa falta de aptidão para artes veio do meu pai. Mamis é mais prática, apesar de gostar muito de ler como eu, desenha bonitinho. Lembro que ela me ajudava muito com trabalhos da escola, inclusive um sobre dinossauros veio com um recado da professora escrito assim "Parabéns, mamãe!". Olha aí a memória inútil de novo...

Já meu pai gosta de tudo nos mínimos detalhes. Quando ele vai contar uma história você tem que sentar, porque nunca será curta. Por exemplo, a frase "João foi na padaria comprar cigarro." vai ser contada assim pelo meu pai: "Sabe o João? Aquele que foi no churrasco do Dó com a família, alto, sabe? Então, ele foi na padaria, mas no meio do caminho estava tendo uma blitz policial, nossa, a rua tava uma confusão. Ele foi andando e...". Mais ou menos isso, a parte em que ele compra o cigarro demoooora pra chegar e eu tento me controlar, porque sou igualzinha. Decoramos tudo, adoramos assistir aqueles programas interessantes, mas que no fim das contas não acrescentam nada demais em nossas vidas (tipo alguns no NatGeo), adoramos ganhar presentes nerds. Ano passado, no dia dos pais, demos pra ele uma coleção com quase trinta livros de geografia e ele amou. E eu já peguei vários emprestados com ele, eu acho que adoraria ganhar um treco desses. O dia em que confirmei minha suspeita que eu e meu pai somos esquisitos foi ano passado, quando fui levar meus pais ao aeroporto. Enquanto esperávamos o voo deles, ficamos conversando sobre várias coisas e minha mãe começou a falar do meu irmão, como ele estava dando trabalho na escola, mas que a escola não facilitava, que ele estava tendo dificuldades em biologia. E ela disse, num tom sarcástico, a seguinte coisa: "e eu vou lá saber qual é a parte da célula responsável pelo armazenamento?". Na hora veio a resposta na minha cabeça e eu e meu pai respondemos em coro, "o complexo de Golgi, ué", como se fosse a coisa mais normal do mundo saber isso depois de trocentos anos fora da escola. Minha arregalou os olhos e disse, surpresa, nossa, vocês são loucos, quem sabe uma coisa dessas...

Apesar dessa nerdisse toda que estou constatando agora e da minha falta de habilidade para o desenho, meus pais me deram uma combinação almost perfect: amo ler, escrever, decorar, estudar, mas odeio números e não consigo desenhar, mesmo querendo. Já meu brother foi feito em outro sintonia, um fool em português (mas não em inglês) e crânio em matemática, não estuda e vai bem sempre. E deve saber desenhar alguma coisa, agora que ele está fazendo um curso que tem que comprar várias réguas diferentes e pranchetas (nota-se minha falta de familiaridade com esse ramo das exatas...). Talvez nossos filhos tenham o equilíbrio perfeito e saibam de tudo um pouco.

Voltando para os desenhos... eu queria muito saber desenhar, mas não sei. Apesar disso, eu tenho uma mania antiga de desenhar em tudo o que tenho e cada época é um desenho diferente. Teve a época do cubo, do coração, da estrela. Atualmente estou na época da flor, tudo que me rodeia tem uma margarida desenhada. Meu caderno da faculdade está lotado de margaridas, as borrachas do serviço também. A carteira ganha várias florzinhas à lápis, que são apagadas depois, claro. Isso é um indicador que a aula está chata... Uma flor significa que estou no lugar e só. Muitas significa tédio. Agora, se eu não tenho mão pra desenhar, porque insisto em desenhos? E outra, quando encasqueto com um desenho, ele sai bem bonitinho. Minhas margaridas beiram à perfeição, delicadas, com pétalas iguais, sempre cinco, com cabinho e às vezes folhinha. Acho que quando eu dicidir sossegar um pouco vou me matricular num curso de artes, quem sabe só falta um pouco de treino?



Agora que acordei, essa música pode: Shakira - Gypsy

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