sábado, 29 de maio de 2010

Rotina que cega

A rotina é um mal necessário. A gente precisa trabalhar, estudar, fazer coisas diariamente que tornam a vida repetitiva, mas sem isso a gente não consegue viver de forma organizada. Seria bom se a gente pudesse viver um dia maluco de cada vez, cheio de novidades, mas aí o mundo seria uma bagunça, ninguém teria um emprego fixo, casa, nada. O problema é que a gente acaba ficando meio cego com essa rotina toda e não repara em coisas simples e quando repara, dá um desânimo de pensar em como a gente corre e como o tempo passa rápido. Eu trabalho todo dia, faço faculdade, minha vida é bem corrida. Moro no mesmo bairro há muitos anos, quase minha vida toda, conheço tudo por aqui, as pessoas, os lugares. Hoje eu trabalhei, mas como é sábado, estava mais tranquila, sem correr tanto. Voltando do serviço, andando devagar, comecei a reparar em várias coisas que durante a semana não consigo reparar, e nem é porque não quero, é porque acabo fazendo tantas coisas ao mesmo tempo que não consigo. Vou para o trabalho pensando no que vou almoçar, volto para o almoço pensando na faculdade, volto para casa pensando no que vou fazer para jantar e assim vai, o cérebro nunca descansa. Hoje o dia estava lindo, ensolarado, o que ajudou a andar numa boa, olhado para todos os lados e pensando em nada. Se estivesse chovendo provavelmente eu estaria enfiada embaixo de um guarda-chuva e não repararia em nada, de novo. No caminho de volta para casa, reparei numa joaninha laranja voando, linda, indo em direção ao trânsito que estava se formando. Depois, vi uma menininha andando de tico-tico, de roupinha lilás e branca, cabelo preso de maria chiquinha, uma gracinha. Reparei em um prédio antigo e bonito, que sempre esteve lá e eu, com mais de 20 anos de bairro, nunca reparei. Me envergonhei muito de pensar em quantas coisas eu já perdi andando que nem louca pela rua, quantos detalhes, quantas coisas bonitas devem ter passado e eu nem percebi. O predinho era uma gracinha, com uma varandinha para a rua, cor de salmão, arquitetura antiga. Moro no Brás, um bairro central cheio de história, colônia italiana. Combinei comigo que em breve darei uma volta pelo bairro, com calma, para reparar nas coisas bonitas que restaram da história do bairro, que apesar de toda a história que tem, vive com muita pobreza, cortiços, sujeira, empresas espalhadas no meio das residências. Se você andar com um pouco mais de calma, vai encontrar uma daquelas nonas italianas sentadas nas portas dos sobradinhos antigos que tem até as datas em que foram construídos no alto da fachada. Na minha rua mesmo, entre prédios, cortiços, botecos, você encontra perdido vários predinhos antigos que, quando reformados, ficam uma gracinha. Prometi relaxar um pouco daqui para frente para reparar mais nos lugares que eu já conheço, para não me cegar mais ainda pela rotina e pela correria.

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