domingo, 8 de março de 2015

Relato de parto da Rafa - parte III

O parto!

Quarta-feira, dia 04 de fevereiro. Um dia normal, barriga grandona, rotina de sempre, busquei Arthur na escola, saí para jantar com os meninos, tudo bem, nada de dores. Estava doida para comer um hambúrguer daqueles bem suculentos, sabe? De hamburgueria? Comi um baita lanchão, com suco de maracujá (Arthur pediu arroz, feijão e batata frita, vê se eu aguento). Conversei muito com meu marido, falei pra ele que no dia seguinte fazia 39 semanas, que estava chegando a hora e que eu corria o risco de passar das 40 semanas. Pedi pra ele não me pressionar caso passasse das 40 semanas, que nós iríamos acompanhar a bebê indo ao hospital algumas vezes caso isso acontecesse, que poderíamos esperar até as 42 semanas. Ele concordou, parecia estar mesmo do meu lado nessa aventura do parto humanizado. Comemos vendo e ouvindo um DVD do Queen, coisa boa! 

Voltamos pra casa, já era tarde. Arthur pediu pro pai dormir com ele no quarto (coisa que ele nunca faz) e lá se foram os dois dormir. Eu estava cansada, mas o sono não vinha (pra variar, dormi mal uns dois meses no fim da gravidez), resolvi ficar deitada na minha cama assistindo seriados e mexendo no celular. Tudo bem até 01:30 da manhã. Comecei a sentir uma cólica fraquinha, como uma cólica menstrual e liguei o alerta. Fiquei deitada vendo seriado e por volta das duas da manhã começou aquela saudosa dor nas costas. Eram as contrações, estava chegando nossa hora! Mandei WhatsApp pra Pâmella só para avisar que estava com algumas dores, mas totalmente toleráveis e para minha surpresa ela respondeu, dizendo que tinha sono leve, rs, é uma linda. Combinamos de ficar em contato para eu ir contando a evolução.


Contando contrações (com o horário errado, mas valeu para contar o tempo e duração)


Fiquei deitada na minha cama, coloquei o acústico do Natiruts pra tocar e tentei relaxar, peguei um site para contar as contrações e quando elas vinham eu sentia aquela dorzinha e quando passava, eu tentava descansar. A Pâmella me disse que era bom eu descansar e até cochilar entre as contrações para o trabalho de parto evoluir rápido, pois com o corpo descansado as coisas fluíam melhor. Quando deu 02:30 a dor estava muito forte, avisei pra Pâmella que estava bem incomodada e ela disse que estava a caminho para ficar comigo. Eu já estava gritando nas contrações, meu marido que até então estava dormindo, veio pro nosso quarto ver o que estava acontecendo. Avisei pra ele que a nenê ia nascer, mas pra ele ficar sossegado, que a Pâmella já estava a caminho. 

Fui pro chuveiro e fiquei sentada na bola de pilates, como isso ajudava! A dor ainda era grande, mas o relaxamento era bom demais! Entre as contrações dava pra quase dormir e isso era ótimo! Me toquei e estava sangrando de leve, além de estar muito inchada, como se o colo do útero tivesse descido ou algo do tipo, estava de um jeito que nunca estive antes. Fiquei lá no chuveiro, estava bem cansada e entre as contrações eu aproveitava pra dar uma "apagada", relaxava o quanto dava até a chegada da próxima contração. Quando ela chegava, eu gritava, os vizinhos devem me amar! Além de gastar água, grito de madrugada, rs. A Pâmella chegou e logo veio ficar comigo, me senti amparada na mesma hora, ela me passou muita calma naquele momento, tentava fazer massagens na minha lombar quando vinham as contrações, mas não sei porque doía mais ainda. Ela, com sua sensibilidade maravilhosa, logo parava, mas ficava ao meu lado. Segurou minha mão, me dizia como respirar (ela me mostrou um jeito de respirar que ajudou muito com as dores!), ficava conversando comigo. Pendurou um tipo de cachecol na armação do box chamado rebozo (acho que é assim que escreve), e quando as contrações vinham eu puxava aquele pano com todas as forças, isso também me ajudou muito.


Rebozos (crédito de imagem site Pregnancy, Birth and Beyond)


A Pâmella ficou controlando minhas contrações, tinha hora que eu conseguia interagir com ela, tinha hora que eu dava uma viajada, por isso acredito que meu relato não vá ficar 100%, porque no trabalho de parto eu dava umas dormidas ou ia pra longe, acho que era eu entrando na tal partolândia que muitas mães falam. A Pâmella me disse que eu dormi várias vezes entre as contrações, acredito que por isso meu trabalho de parto evoluiu tão rápido! Lembro que a dor estava cada vez mais forte e eu pedi para ir pra minha cama, estava tocando Natiruts ainda, mas eu não ouvia nada. Deitei e fiquei lá por um tempo, creio que curto, porque deitada era a pior posição para mim. Pela milésima vez quis fazer cocô e eu sabia que estava cada vez mais perto da Rafa nascer, dizem que o corpo se "limpa" pra chegada do bebê, fora que quanto mais o bebê desce, mais aperta tudo dentro da gente, né? 


Bola de pilates, água quente, rebozo, doula linda: conjunto perfeito para um parto natural!


Voltei pro chuveiro e lá fiquei na bola, embaixo da água quente. Estava derretendo, pingava de suor, não conseguia ficar de roupa nenhuma. A água quente me ajudava demais e ao mesmo tempo me incomodava, porque eu sentia muito calor. Lembro num flash que numa contração dolorida eu tomei um baita capote da bola de pilates lá dentro do box, hahaha, coisas de Guaciara, levar capote no trabalho de parto. Lembro da Pâmella se assustando de leve e eu pulando que nem uma rã pra cima da bola de novo, com aquela baita barrigona, hahaha, dou risada quando lembro disso! E voltei pra bola, gritando e gemendo, até que a contração foi embora mais uma vez. Num certo momento lembro de querer arregar, falei pra Pâmella que não aguentava mais, que não ia conseguir. Não lembro se falei pra ela, mas lembro de ter pensado muito em anestesia, que queria ir pro hospital tomar anestesia. Ao mesmo tempo eu ficava pensando "seja forte, você não se dá bem com anestesias, lembra?". E aí por um momento pensei "nossa hora está chegando, lembro de ter lido em muitos relatos que a fase da 'covardia' chega quando o parto está próximo!". 

Não sei bem que horas eram, mas vi a Pâmella ligando para a enfermeira, a Karina, dizendo pra ela vir porque eu estava com muita dor. Depois ela me disse que resolveu chamar a Karina meio que por instinto, já que minhas contrações estavam irregulares e eu ainda conseguia dormir entre elas. Era mais ou menos umas 4 da manhã quando a Karina chegou, no meio de uma contração dolorida pra caramba. Chegou rindo, me dando oi, com aquele sorrisão que ela tem, não sei se ri, mas lembro de ter querido pelo menos, rs. Saí do banho e ela disse que ia me examinar. A Pâmella me segurou e eu agachei pra Karina poder fazer um toque. Quando ela fez o exame, olhou pra mim e disse que eu estava com dilatação total! Não sabia se ficava feliz ou preocupada, afinal era dilatação total em casa, não no hospital. Meu marido tinha ido buscar minha mãe para ficar com o Arthur (que dormia pesado) para podermos ir para o hospital. A Karina falou pra Pâmela jogar qualquer roupa em mim para voarmos para o hospital (graças a Deus minha gaveta de roupas estava arrumada, coisa rara, rs!). Ela pegou um vestido, me vestiu, pôs um chinelo e tentei andar, mas a dor estava muito forte. Peguei meu celular na cama para poder me comunicar com meu marido, o Ipad ainda tocava Natiruts (que praticamente nem ouvi) e fomos pra sala, devagar. Além da dor, estava preocupada em deixar Arthur sozinho, mesmo que por poucos instantes, para irmos para o hospital. Do curto percurso do quarto até a sala demorei uma eternidade! As contrações estavam vindo coladas umas nas outras e quando cheguei no sofá, só consegui deitar e gemer de dor, estava perdida, não sabia se botava um ovo, se casava ou comprava uma bicicleta. Falei pras meninas que não conseguia andar, a Karina pediu para me examinar de novo e confirmado, 10 cm de dilatação. A Ka perguntou se eu queria ficar em casa ou ir para o hospital (já que eu sempre tive aquela vontade de ter um parto domiciliar, mas tinha um pouco de medo e meu marido tinha todo o medo), eu perguntei se dava tempo de ir para o hospital e a resposta foi pode ser que sim, pode ser que não. Falei que queria ficar. 

Nisso eu já relaxei e vi que a Rafa ia nascer em casa mesmo. Comecei a procurar uma posição que fosse melhor para nós. Agachei, fiquei em quatro apoios, deitei, sentei no chão, nada me confortava. Enquanto isso, ouvi a Karina ligar pra Dra. Camila, a obstetra, e avisar que não daria tempo de ir pro hospital, que ficaríamos na minha casa mesmo. Em algum momento elas também ligaram para o Dr. Jairo, o pediatra, porque deu tempo dos dois chegarem! Mas voltando, aí a Karina pediu pra Pâmella pegar as coisas para parto domiciliar no carro dela rapidinho e nesse meio tempo volta meu marido com a minha mãe e pergunta "e aí, vamos pro hospital?". E aí as meninas disseram para ele que não daria tempo e pra minha grande surpresa ele bancou! Gente, vocês não tem ideia do que é isso, eu achei que meu marido ia me catar no colo e me levar pro hospital de qualquer jeito, nunca imaginei que ele sentaria do meu lado e aceitaria o parto domiciliar (depois ele me disse que sou louca de pedra mesmo, mas rindo, rs). Pedi pra minha mãe ficar comigo enquanto meu marido ia pegar toalhas para forrar o chão e pra receber a Rafa, estava muito feliz (lááá na partolândia, mas estava feliz, juro) da minha mãe estar comigo nesse momento tão importante e ela foi forte, viu? Nada de frescura, de medo, de nada, ficou lá de mão dada comigo, me ajudando.


Recebendo o apoio e carinho da minha mãe durante uma contração


Em algum momento, quando eu estava na sala, Arthur acordou e veio me perguntar se eu estava doente, porque estava gritando. Fiquei preocupada dele sentir medo em me ver sentir dor, mas que nada! Eu falei pra ele que estava tudo bem, que era só a irmãzinha dele chegando, e como muitas me avisaram, ele não sentiu nada de medo! Ele começou a RIR dos meus gritos (que estavam tão altos que meu marido disse que dava para ouvir do térreo e moramos no décimo quinto andar!), dizendo que eu gritava como o Hulk, que a mamãe era o Hulk! Começou a gritar comigo e dar risada, ia pro quarto ver desenho, às vezes voltava pra ver o que acontecia, mas sempre rindo e sem medo. 

A Pâmella subiu com a super mala da Karina (nada de tesouras e água quente, parto domiciliar moderno tem estrutura =]) e trouxe também a banqueta. A Ka perguntou se eu queria sentar nela, eu estava cansada, com dor, não sabia mais o que queria, só queria que a Rafaela nascesse logo. Estava com uma vontade imensa de fazer cocô, mas dessa vez não era cocô coisa nenhuma! Era a cabeça da neném descendo. A todo momento a Karina estava escutando o coraçãozinho da Rafa (ela fez isso desde o primeiro momento que pisou em casa e toda hora vinha escutar o coração dela com o aparelhinho) e firme me dizia "não é cocô, é a nenê! Mas se quiser fazer cocô, faz também, não tem problema!". Sentei na banqueta e ali encontrei meu lugar! Entrei num transe louco, como nunca entrei na minha vida. Era a tal partolândia então! Tudo acontecendo ao contrário do que imaginei: eu pelada (queria um top no meu plano de parto, mas na hora estar sem roupa nenhuma era o melhor pra mim), sem música (queria música no plano, mas naquele momento só queria silêncio), eu sem medo nenhum de fazer cocô (era um dos meus grandes medos, fazer cocô na hora do parto e como muitas amigas me disseram, foi a última coisa que me preocupei na hora!). Estava sentada, nem vi a Dra. Camila e o Dr. Jairo chegarem, minha mãe de um lado, meu marido do outro, a Pâmella sentada por trás de mim, me servindo de apoio. Estava me balançando pra frente e pra trás, sentia dor, mas era menos (ou parecia menos) do que eu sentia antes. Apagaram todas as luzes, era madrugada ainda. Karina só ligou uma lanterna e eu fiquei sentada na banqueta, viajando entre a Terra e sei lá onde, estava longe e perto ao mesmo tempo. A Karina colocou um espelho pra eu ver, enxergava a cabecinha da Rafa cheia de cabelos pretinhos. Sentia ela descer e do nada, subir de novo. Fazia força, me toquei de novo e senti algo diferente, era a bolsa que ainda não tinha estourado! Lembro de ter perguntado se sem estourar a bolsa o bebê nascia e a Karina e a Camila disseram que sim. Apertei um monte minha mãe, a Pâmella, a Karina, meu marido, coitados! A Karina estava de frente pra mim e me deu as mãos de cruzado, a força parecia ter mais efeito assim. Ouvi um barulho, um ploc, era a bolsa estourando! Olhei pra baixo por instinto, a água estava suja, Karina disse que era mecônio, mas nem liguei, sabia que o mecônio não faria mal pra Rafa. Fiz mais umas duas forças (eu acho) e senti a cabeça da Rafa sair e logo seu corpinho escorregar. Por incrível que pareça, não tenho lembrança de ter sentido dor nesse momento. Quatro horas depois do trabalho de parto começar me entregaram a Rafaela, no exato momento em que ela nasceu! Na hora parecia uma bolinha, estava com os olhos bem abertos, era bem cabeluda e peludinha, como eu tinha sonhado uns dias antes! Olhava seus dedinhos compridos como os meus, sua orelhinha mínima, conferia o que estava ao meu alcance, como se fosse um sonho! Estava tão impressionada por ter conseguido, por ter sido tão rápido, que não consegui chorar. Fiquei olhando pra ela, chocada, haha, estava muito feliz, mas nem eu acreditava que eu tinha conseguido e o melhor, na minha casa! Arthur veio conhecer a irmã, mas não deu muito ibope não, rsrs, foi logo pro quarto dormir. 


Nossa Rafa


Dr. Jairo veio examiná-la no meu colo, Camila e Karina estavam massageando minha barriga pra placenta nascer logo e foi rápido, creio que coisa de uns 15 minutos. Logo me levantaram e fui pro meu quarto com a Rafa, deitei na minha cama e fiquei lá com ela, abraçada na minha filhotinha. Dr. Jairo terminou de examiná-la, a pesou, minha fofa nasceu com 3200g! Enquanto isso, as meninas me examinavam, tive uma laceração de segundo grau, mas não levei pontos por conta da localização. Estava cansada, mas encantada com tudo. Tinha muita sede, mas nada de fome, mesmo assim comi uns pedaços de torrada. O pessoal ainda ficou um pouco lá em casa, estava uma festa! Depois que eles partiram, fiquei deitada lá na minha cama, horas depois tomei um banho, estava como nova, só com bastante sono. Ficamos eu, Rafa e os gatos, nos conhecendo, foi lindo, foi maravilhoso! Os gatos vieram um a um conhecer a Rafa, cheirar, conferir quem era a nova integrante da família. Ah, e a equipe foi show até na organização, quando levantei um tempo depois nem parecia que tinha acontecido um parto na minha sala, tudo na mais perfeita ordem!



Descansando com a Rafa pouco depois dela nascer, no meu quarto


Bom, esse foi nosso parto, um renascimento depois da cesárea do Arthur, vi que sou capaz de tudo agora, que tenho um marido muito mais companheiro do que poderia imaginar, um filho realmente forte, que não teve medo quando me viu com dor, vi que o parto domiciliar é possível e seguro, que a equipe da ComMadre é fantástica e os recomendo de olhos fechados! São mais do que profissionais humanizados, eles realmente bancam o que eles acreditam, são amorosos, atenciosos, o atendimento pós parto deles é excelente, o pré então, maravilhoso! Sou eternamente grata a cada um deles, Pâmella (sem minha querida doula nada disso teria sido possível, talvez teria me precipitado, ido para um hospital por causa da dor), a Karina, a Camila e o Dr. Jairo, todos nota mil! Agradeço à todas as mulheres que conversaram comigo, que me incentivaram, à todos os muitos relatos de parto que li, ao meu marido e minha família, até às amigas que fizeram cesáreas eletivas, pois via que aquilo não era pra mim e que eu precisava procurar algo diferente pra chegada da Rafa. Agradeço ao pessoal do GAMA, todas as mulheres que conheci lá e que dividiram suas histórias, seus medos e dúvidas comigo. Recomendo para todas, leiam, se informem, se empoderem, nós fomos feitas para parir, somos capazes, fortes e aguentamos o tranco. Dói? Dói, mas é uma dor gratificante, se eu tivesse um terceiro filho, seria natural de novo, sem dúvidas!!

Espero que tenham gostado da bíblia, escrevi com o coração!

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